Cientistas querem Brasil reconhecido

10 de Agosto de 2018

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), deram início a uma cruzada para que nações em crescimento, mas com alta capacidade de inovação na saúde, incluindo o Brasil, sejam reconhecidas entre os “Países em Desenvolvimento Inovadores”. O índice surgiu de movimento iniciado em 2005, quando grupo de aproximadamente 20 pesquisadores – sanitaristas, pesquisadores e representantes de revistas científicas – participavam de encontro no Centro de Estudos e Conferências da Fundação Rockefeller, em Bellagio, Itália, para discutir apoio à pesquisa.

A classificação, defendem esses especialistas, fortalece os programas de pesquisa desses países e permite a continuidade dos projetos, com garantias nos repasses de investimentos. Os efeitos são infraestrutura sólida na área de saúde e manutenção de redes de colaboração, a fim de obter respostas rápidas e efetivas nos casos de crise.

Com esse intuito, as duas instituições publicaram pesquisa na revista “PLOS Neglected Tropical Diseases” – uma das mais respeitadas do mundo na área de doenças negligenciadas. A ideia é questionar a divisão de países entre industrializados, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Segundo o documento, o conceito de IDCs (do inglês Innovative Developing Countries), designado aos que detêm programas científicos de impacto, seria uma alternativa mais adequada à segmentação usual.

Para construir o indicador, o grupo se baseou, inicialmente, na quantidade de patentes per capita da área de saúde registradas nos Estados Unidos. O diagnóstico demonstrou que, entre os 25 primeiros países com maior índice, nove não eram avançados (China, Índia, Brasil, África do Sul, Tailândia, Argentina, Malásia, México e Indonésia).

A abordagem foi ampliada recentemente, dividindo-se o número total de patentes depositadas por cada país sob o Tratado de Cooperação de Patentes (PCT) pelo PIB per capita. Nações não consideradas economias de alta renda pelo Banco Mundial (renda per capita superior a US$ 12.476, em 2015) e classificadas entre as 25 mais inovadoras se encaixam na categoria IDCs.

A lista atualizada tem como primeiro lugar China, ultrapassando EUA, Índia e Japão. O Brasil perdeu três posições no ranking e passou a ocupar o 15º lugar.

“Há evidências de que os índices usuais não refletem a realidade. Obter esse reconhecimento implica recursos e mais oportunidades para os pesquisadores”, afirma Carlos Morel, coordenador do Instituto Nacional de C&T de Inovação em Doenças de Populações Negligenciadas (INCT-IDPN) e do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz.

O especialista afirma que, além disso, muitos países desenvolvidos costumam achar que os menos ricos, como o Brasil, são incapazes de resolver os próprios problemas. “Isso acontece mesmo quando muitas soluções e inovações são produzidas internamente”, afirma.

Liderança no grupo que estava na Itália, Morel relembra de situação que ilustra esse caso, quando Celina Turchi, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, foi escolhida uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista americana “Time”. PhD em epidemiologia das doenças infecciosas, a médica comprovou a relação entre o zika vírus e o surto de microcefalia que atingiu, principalmente, o Nordeste brasileiro.

O debate acerca do papel dos IDCs no controle e prevenção de epidemias se baseou nas redes de colaboração em pesquisa sobre zika e ebola. “É fundamental mostrar a importância de países IDCs. O Brasil tem liderança em várias áreas. Na questão do vírus ebola na África, por exemplo, as soluções vieram de fora daquele continente”, compara Morel.

“Tudo isso passa pela manutenção das pesquisas”, observa Alexandre Guimarães Vasconcellos, pesquisador em propriedade industrial da Divisão de Pós-Graduação e Pesquisa (DIPGP) do INPI. Ele ressalta que inovação tem tempo de maturação e requer investimentos, sendo fundamental para o desenvolvimento. “As conquistas devem ser comemoradas, mas é preciso estar alerta para não serem deixadas de lado e ocorrer subinvestimento”.

 

Fonte: Academia Brasileira de Ciências / Leila Souza Lima para o Valor Econômico.






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