Setembro Amarelo: precisamos entender o outro

10 de Setembro de 2018

Provável que você já tenha escutado frases e expressões semelhantes a: “não sei nem por que nasci”. Porém, precisamos dar a devida atenção para situações parecidas e saber distinguir um desabafo de um transtorno e ser solidário (a) a dor do outro. O assunto ainda é um tabu e muitas vezes negligenciado, no entanto é necessário falar cada vez mais sobre os transtornos psicológicos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) o suicídio é a 17ª causa de morte no mundo e, segundo o Ministério da Saúde, cerca de 30 pessoas se matam a cada dia no Brasil.

Conversar sobre o tema é uma questão social e de saúde pública e desde 2015 é realizada a campanha Setembro Amarelo, do Centro de Valorização da Vida (CVV), que objetiva trazer o debate sobre o suicídio buscando conscientizar e prevenir.  O silêncio deve ser quebrado.

De acordo com a professora do departamento de psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fabiane Rossi, o suicídio é um problema de saúde pública e tem aumentado o número de casos, sendo essencial campanhas que valorizem a vida.

“É fundamental que campanhas como o Setembro Amarelo tragam à tona esta discussão, para que o desconhecimento e o estigma relacionados ao assunto possam ser reduzidos. Importante destacar que ações que discutam temáticas relacionadas à saúde mental necessitam ser realizadas não somente em datas específicas, mas continuamente visando ampliar o conhecimento sobre o assunto”, destaca.

Segundo a psicóloga Cláudia Vardiero, os indivíduos que sofrem de transtornos devem sentir confiança e acolhimento em alguém ou algum grupo para que possam se expressar sobre os pensamentos negativos e, nos casos mais graves, ideação suicida.

“Pessoas que chegam a pensar em cometer suicídio geralmente estão passando por um sofrimento psicológico muito intenso, onde já não conseguem prever soluções e, na grande maioria dos casos, deixam sinais, nem que sejam discretos de: ambivalência entre querer viver e querer morrer e desesperança. Chegam a prever a morte como solução para cessar a dor”, explica Cláudia.

Não é bobagem nem falta de ocupação

Uma palavra faz toda diferença. A empatia, o amor, a atenção e a preocupação com o próximo pode salvar uma pessoa. Muitas mortes poderiam ser evitadas se déssemos mais atenção aos sinais oferecidos por aqueles que planejam o fim da vida como modo de acabar com o sofrimento.

As causas podem ser diversas, como abuso sexual, problemas sociais, depressão e ansiedade. Para a psicóloga Cláudia os transtornos de ansiedade, de maneira geral, estão associados ao sofrimento psicológico caracterizado pela necessidade desproporcional de controle sobre as situações e sobre o futuro.

“Existe a sensação de perda de controle. A ansiedade patológica quando associada à depressão, como no transtorno misto de ansiedade e depressão, por exemplo, pode contribuir para o ato do suicídio. Pacientes diagnosticados com Depressão Maior merecem bastante atenção sobre a avaliação de risco ao suicídio, já que esse transtorno causa perda acentuada de sentimento de prazer, motivação para a vida, autoestima e esperança e muitas vezes essa perda está associada à presença do sentimento de culpa. A busca por ajuda profissional com um psiquiatra e um psicólogo é indicada para que o paciente possa ser amparado por medicação e tratamento psicoterapêutico”.

Do mesmo modo, para Fabiane é importante não subestimar falas (há uma falsa crença de “quem fala não faz”), ficar atento a sinais e sintomas (falar muito de morte, por exemplo).

 “Sentimentos de tristeza extrema, solidão, desamparo, desesperança e autodesvalorização devem ser valorizados. Importante ouvir com cordialidade, tratar o sofrimento do outro com respeito, ter empatia com as emoções e acolher com sigilo. O suporte social é fundamental nestes contextos para que as pessoas que têm pensamentos suicidas se sintam confortáveis e acolhidas ao pedir ajuda”.

Um tabu que pode ser quebrado

Várias questões podem evitar que o suicídio e os transtornos mentais sejam identificados e prevenidos com antecedência.  De acordo com a professora Fabiane, o estigma e o tabu relacionados ao assunto encontram-se entre estes fatores.

“Em termos históricos durante muito tempo, por razões religiosas, morais e culturais, o suicídio foi considerado um grande ‘pecado’, sendo um tema velado, ocultado e não discutido. Por esta razão, ainda é natural observarmos medo e vergonha de se falar abertamente sobre esse importante problema de saúde pública devido ao receio da crítica e do julgamento. São observadas, inclusive, dificuldades (por desconhecimento ou preconceito) até mesmo por parte de profissionais de saúde que realizam atendimentos de urgência a pessoas que tentam suicídio. Há uma pseudo ideia de que a tentativa de autoextermínio seja uma maneira de se chamar a atenção e não o que consiste a tentativa em si, que é um ato extremo de sofrimento. É necessário que as pessoas sejam empáticas no sentido de buscar compreender o que leva o indivíduo ao ato. Lutar contra esse tabu é fundamental para que a prevenção seja bem sucedida”, conclui Fabiane.

Lute pela vida

Nem sempre conseguimos notar os sinais daqueles que estão passando por algum transtorno, mas sempre podemos ajudar. Algumas atitudes podem melhorar a qualidade de vida e saúde mental, explica a professora Fabiane, como atividade física regular, alimentação saudável, práticas como mindfulness (atenção plena: autorregulação da atenção para a experiência presente).

Além disso, “fazer companhia, tentar promover pequenos momentos em que a pessoa se sinta querida, indispensável e valorizada; se sentir parte integrante e especial de um todo sendo família, amigos, equipe de trabalho, faz muita diferença para a retomada de satisfação com a vida e de motivos para viver”, completa Cláudia que acredita no acolhimento como um modo de promoção simplificada das cores e sentido da vida para aqueles que sofrem com os distúrbios mentais.

Buscando ajuda

Todos devem ficar atentos aos sinais e sintomas apresentados pelo outro. Deve-se dar atenção ao sofrimento e, além disso, sugerir o acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Existe uma central gratuita e disponível para todo o Brasil que presta serviço voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato, o CVV (Centro de Valorização da Vida) que funciona através do número 188, atendendo voluntária e gratuitamente por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Para Cláudia Vardiero é essencial que a pessoa em sofrimento entenda que precisa de ajuda e que tenha com quem contar. “Um primeiro passo positivo é escolher alguém de confiança para falar sobre o que tem pensado, para buscar conforto e acolhimento; assim como buscar por ajuda de profissionais. Tentar aos poucos se reconectar com coisas e atividades que já trouxeram prazer e maior significado para a vida também pode ajudar muito na recuperação”.

 

O Centro de Psicologia Aplicada da UFJF (CPA-UFJF)

fica na Rua Santos Dumont, 214, no Centro.






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