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Desvendando os desafios da olivicultura

Entrevistamos a Dra. Maria Eugênia Lisei de Sá, uma pesquisadora renomada da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG). Nesta entrevista, exploramos seu projeto de pesquisa, os obstáculos enfrentados pelas mulheres na ciência e as dificuldades de financiamento governamental para pesquisa.

Dra. Maria Eugênia, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG)

Sobre a Dra. Maria Eugênia Lisei de Sá

Com uma vasta trajetória acadêmica, a Dra. Maria Eugênia é uma pesquisadora altamente qualificada, com mestrado em Agronomia e doutorado em Genética e Bioquímica. Seu compromisso com a pesquisa a levou a realizar um pós-doutorado em Biotecnologia na França, consolidando sua expertise na área.

 

Produção de mudas de oliveira com alta qualidade genética e sanitária

Como coordenadora do Programa Estadual de Biotecnologia na EPAMIG, a Dra. Maria Eugênia lidera projetos destinados a fortalecer a biotecnologia em Minas Gerais. Em parceria com o Programa Estadual de Pesquisas em Olivicultura da EPAMIG, ela desenvolve uma pesquisa inovadora focada na produção de mudas de oliveira com alta qualidade genética e sanitária, utilizando técnicas biotecnológicas avançadas. 

A EPAMIG, pioneira na extração de azeite de oliva extra virgem em Maria da Fé (MG), busca aprimorar a qualidade das mudas de oliveira para enfrentar desafios como a bactéria Xylella fastidiosa, que afeta gravemente a cultura da oliveira

Essa bactéria representa um desafio significativo para os olivicultores devido à sua capacidade de infectar e se reproduzir no xilema (aparelho condutor da seiva bruta), interferindo no fluxo de água para o restante da planta. Essa bactéria é transmitida por vetores, popularmente conhecidos por cigarrinhas, que se alimentam de plantas previamente infectadas e, ao fazê-lo, podem transmitir a doença para outras plantas saudáveis.

Os produtores geralmente aplicam defensivos para minimizar os efeitos da Xylella fastidiosa, mas não há uma cura definitiva para essa doença. Uma das estratégias de prevenção mais eficazes é a produção de mudas sadias, utilizando técnicas como a produção de mudas in vitro. O objetivo do projeto liderado pela Dra. Maria Eugênia é desenvolver mudas de oliveira de alta qualidade genética e sanitária em três laboratórios da EPAMIG, localizados em Uberaba, Janaúba e São João Del Rey.

Cada laboratório se concentra em uma categoria específica de pesquisa para a produção de mudas sadias, visando fornecê-las para viveiros, responsáveis por multiplicar e distribuir as plantas. Com o avanço da doença causada pela bactéria,  a maioria das mudas disponíveis nesses viveiros já se encontra contaminada.

A ausência de um antibiótico específico para tratar essa doença agrava ainda mais a situação. Como a Xylella fastidiosa é transmitida por insetos como as cigarrinhas, que estão presentes na natureza, é difícil controlar sua propagação. A infecção por essa bactéria causa sintomas como queima das folhas nas pontas, especialmente nos brotos mais jovens, dando a impressão de estresse hídrico ou citotoxicidade causada por produtos químicos, causando, principalmente, a perda e depreciação da produção e levando a prejuízos dos produtores.

Essa pesquisa recebe o apoio financeiro da FAPEMIG e a gestão de projetos é realizada pela Fadepe. “Mesmo sendo um dos primeiros projetos executados pela Fadepe na área do agronegócio, isso não prejudicou em momento algum o andamento do processo. As pessoas encarregadas de atender foram extremamente solícitas em colaborar, compreendendo as necessidades, realizando as compras, as licitações e o levantamento de preços como eu sempre precisei”, destaca a pesquisadora.

 

Desafios do financiamento governamental para a pesquisa científica no Brasil

A falta de recursos financeiros é um desafio recorrente enfrentado pelos pesquisadores brasileiros, afetando diretamente a produção científica e tecnológica do país. 

“De modo geral, o país está passando por um problema muito difícil pela falta de recursos. A educação e a pesquisa foram afetadas por esse corte. Uma coisa está atrelada a outra. Quem trabalha com pesquisa, trabalha com formação de recursos humanos. Sem recursos para educação, não se investe em pesquisa, tecnologia. Nós, pesquisadores, sofremos muito com essa desatenção governamental”, destaca a pesquisadora Maria Eugênia.

Ela ressalta que alguns estados brasileiros têm mais facilidade, como São Paulo, através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “Como o ICMS é grande, eles conseguem fazer esse repasse e consequentemente cumprir com as obrigações da pesquisa.” No estado de Minas Gerais, por outro lado, houve muitos problemas de repasse de recursos. “Eu tive um projeto que foi aprovado em 2017, através do edital universal. No entanto, o recurso só foi liberado em 2021. Depois de 4 anos, o quanto esse recurso não ficou defasado? Um recurso de 40 mil, com a inflação que temos, hoje vale menos de 20 mil”, destaca a Dra. Maria Eugênia.

A pesquisadora acredita que o principal desafio é, de fato, a falta de recursos. “Não é falta de recursos humanos. Temos excelentes universidades, espalhadas pelo Brasil. A maioria delas federais, mas também muitas particulares, que estão cada vez mais buscando aprimorar os cursos de Pós-Graduação, para competir com os recursos liberados para a pesquisa”, destaca a pesquisadora.

Uma estratégia que ela destaca para driblar a falta de recurso é a realização de parcerias. “A palavra de ordem é parceria – uma instituição tem uma expertise, outra tem outra, então elas se juntam e otimizam o recurso que a gente precisa. Nem sempre conseguimos todo o recurso que é necessário para a realização de um projeto de pesquisa, e aí entram as parcerias. Cada uma junta o seu recurso, a sua expertise, e com isso todo mundo ganha. Com os resultados das pesquisas, o país ganha, o governo ganha, a sociedade ganha”, ressalta a pesquisadora.

 

Desafios e avanços das mulheres na pesquisa

“A trajetória das mulheres na pesquisa tem sido marcada por desafios e conquistas significativas ao longo dos anos”, ressalta a pesquisadora Maria Eugênia Lisei de Sá, que compartilha sua perspectiva sobre essa evolução.

“Eu já tenho 36 anos de EPAMIG. Quando eu entrei, 99% do quadro de pesquisadores era formado por homens. Hoje essa realidade já mudou muito. Eu era bem jovem, muita imatura em alguns aspectos, e aquela cultura era uma cultura predominantemente machista. Sendo a EPAMIG, uma empresa de pesquisa agropecuária, a maioria dos colegas possuía formação em agronomia, enquanto eu em biologia. Com o passar dos anos, isso foi modificando”, destaca Maria Eugênia.

“Atualmente temos um número muito grande de mulheres na pesquisa. Seja na universidade, ou empresas como EPAMIG, ou outras instituições. Hoje temos muitas iniciativas governamentais para incentivar a mulher na pesquisa. Tudo isso foi fruto da bandeira de mulheres sérias, que defenderam isso.”

Nesse contexto, iniciativas como a chamada CNPQ Nº 31/2023 – “Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”, promovida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e outros órgãos, têm sido fundamentais para impulsionar a participação feminina em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Essa chamada tem como objetivo apoiar projetos que visem contribuir significativamente para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, incentivando o ingresso, a formação, a permanência e a ascensão de meninas e mulheres nas carreiras de Ciências Exatas, Engenharias e Computação.

“A inclusão social é importantíssima. O Brasil está fazendo um excelente papel nesse sentido”, destaca a pesquisadora.

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